5.4.10

SOBRE ESCOLHAS, EXPECTATIVAS E VAMPIROS



Dia desses um amigo compartilhou o TED do psicólogo Barry Schwartz, autor do livro "O paradoxo Da Escolha", que argumenta sobre como o excesso de escolhas que fazemos todos os dias gera um grande mal estar. Para ele, ao realizar uma escolha, automaticamente sentimos que estamos perdendo outras oportunidades. Ou seja, a possibilidade de arrependimento é proporcional ao número de opções disponíveis.



Em um contexto tão complexo e estressante, talvez o papel das marcas não seja oferecer 30 variantes, mas sim encontrar uma forma de facilitar tais escolhas. O Luiz Matropietro fez um post muito interessante sobre isso lá no Estalo há um tempo atrás. Esse é inclusive um dos principais argumentos do Chris Anderson em seu último livro, "Free!", no qual o autor defende que oferecer um produto ou serviço de graça ameniza a possibilidade de uma escolha ruim, deixando o consumidor mais tranquilo e mais seguro.



O problema é que a angústia gerada pelas escolhas vem de um traço muito mais complexo: o excesso de expectativas. Seja folheando uma revista feminina ou um livro de auto-ajuda, é possível perceber que a felicidade é quase impossível em uma sociedade tão aturdida por expectativas estratosféricas. Barry Schwartz afirma que essa é a principal razão dos altos níveis de depressão e suicídio na sociedade atual.

Tudo isso porque, de acordo com o psicólogo, desejamos que tudo seja "incrível" e "perfeito", mas o melhor que podemos esperar é que alguma coisa seja tão boa quanto idealizamos anteriormente. Dessa forma, expectativas tão altas tornam impossível surpreender-se com as decisões tomadas e, consequentemente, com a vida de forma geral.



Esse contexto pode ser ainda mais caótico se considerarmos a geraçãoY e sua imensa dificuldade de tomar decisões. Para os chamados YEPPIES (Youn Experimenting Perfection-seekers), altas expectativas levam a um ciclo vicioso de constante experimentação, exaltação e frustração. "Crise dos 25" é uma conseqüência clara desses anseios superestimados.



Com tantas dúvidas e incertezas, nada mais natural que o desejo de adiar grandes tomadas de decisão, seja carreira ou relacionamento. Afinal, se a medicina obteve tantos avanços nos últimos anos, teremos todo tempo to mundo para fazer tais escolhas. E aí entra a famigerada "Síndrome de Peter Pan", desejo de juventude eterna responsável pelo seu amigo de 35 anos que ainda mora com os pais.



Posso estar delirando, mas acredito que tudo isso seja uma das maiores causas da histeria coletiva por vampiros e imortalidade que estamos vivendo. Crepúsculo, True Blood, Vampire Diaries e até Backstreet Boys estimulando o imaginário coletivo a pensar em como seria viver para sempre e, consequentemente, ter toda a eternidade para tomar decisões.



Em todas essas tramas, vampiros são apresentados como personagens envoltos numa atmosfera de tédio e melancolia, criaturas condenadas ao marasmo da vida eterna. Até que um deles [sempre] se apaixona por algum mortal, colocando a imortalidade em cheque e [re]descobrindo as maravilhas da vida humana. Apesar de frágeis, mortais preservam traços há muito abandonados pelos vampiros, tais como sensibilidade, euforia e uma capacidade única de surpreender-se e apaixonar-se pela vida.

E aí fico me perguntando se a sociedade em que vivemos realmente possui tais traços humanos. Em um cenário de tanta depressão e apatia, de acordo com Schwart, impulsionado pelo excesso de escolhas e expectativas, será que ainda conseguimos nos surpreender com a vida?

Talvez os vampiros é que sejam nossos reais semelhantes nos tempos atuais. Talvez o consumismo tenha desenvolvido melancolia e imortalidade ilusória em todos nós. Sendo assim, ao invés de almejar o lado misterioso, invencível e imortal, talvez devêssemos pensar mais em resgatar nosso lado humano, imperfeito, mortal e, acima de tudo, encontrar uma forma de nos surpreender novamente com as escolhas que fazemos no nosso dia-a-dia.



[via e-bay generation, Skull,nu, conversas com Stephanie Kohn e Edu Iguelka]

8 comentários:

Paula_G disse...

Não sei se presto atenção ao CQC, se respondo os e-mails pessoais, se assisto ao dvd com os filmes do super bowl que meu chefe me deu, se fuço a vida alheia no Facebook, se aproveito pra ler mais um capítulo da Clarice, se leio seu post inteiro ou se twito o insight que tive logo na metade do seu texto. A obrigação de escolher me cansou tanto que vou dormir. Frustrada. E é sério.

1 disse...

Paulinha, no mínimo fala desse insight, estou curioso e não quero morrer sem saber...hahahha, angústia e frustração são uma merda!

andrelucas1303 disse...

hahahaha
Entendo MUITO o que vc está passando.
Vivo isso todos os dias.
Angústia e caos.
Insano.
Ser querer ser [muito] apocaliptico, mas acho que tudo piorou com as mídias sociais.
O_o

mas dormir é a mlhor opção. rs

Mss. Kohn disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mss. Kohn disse...

Vou ser radical: não se permita sentir essas coisas só porque agora aprendemos bons argumentos para isso!

Seja simples e opte sim, pela felicidade!

mabrugnolo disse...

Cecilia Meireles escreveu uma poesia em algum momento entre 1901 e 1964 (quando era viva)com o título "Ou isto, ou aquilo"
Vale um trechinho:

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e nao se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e nao se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não parece a mesma reclamação/angustia que vc sente, Andressito? Com a diferença que ela transformou em poesia, aproximadamente 50 anos atrás...

E eu nao digo que não sinta isso. You know I do. Mas talvez... não seja um sinal dos tempos.
Talvez seja a vida mesmo.

mabrugnolo disse...

Que bom ter vc de volta, oficializando discussoes que nascem no Giga e nas madruagadas em Temakerias, mas que devem ir muito além... :)
love ya

Paula_G disse...

Gente, gente! quem é o "1" que se dirigiu a mim e ta mega curioso? Curiosa to eu, oras ;-)

Deco, a sensação é de que quanto mais livro eu compro menos tempo tenho para ler. Consumo, logo existo, hmpf.